EU GRITEI: SOU UMBANDA, PORRA! – E foi um ato de amor.

Quando a vida fica tumultuada, os caminhos perdem as marcas na estrada e o céu escurece, vemos quem é que está ao nosso lado, verdadeiramente. O coração dói, os olhos pesam, a alma grita. Foi em um momento assim, que pisei pela primeira vez em um terreiro de Umbanda. E foi a melhor coisa que fiz na vida.

Foda-se o momento que estava passando, aquele abraço da entidade, seu sorriso sincero e aquela energia maravilhosa juntou-se a celebre frase:

— Que bom que você está aqui, seja bem-vindo!

Não entendia muito bem o que estava fazendo ali, principalmente quando questionei a mim mesmo sobre as voltas que a vida dá. Nunca pensei em pisar em um lugar assim, aliás… custei a acreditar. Mas quando estamos na merda, a esperança é a última que morre.

Aquele abraço da entidade confortou meu coração. Em um mundo que todos querem falar mais alto que o próximo, ela me deu a oportunidade de vomitar tudo o que acontecia na minha vida e abalava meu coração. Apenas escutava, não dava opinião, não julgava e muito menos condenava. Que coisa esquisita.

Após falar tudo o que cortava minha alma, ela sutilmente disse: agradeça a vida! Agradeça, do fundo da sua alma. Eu não entendi, mas estranhamente tentei fazer o que me foi orientado. E algo começou a mudar dentro de mim. Queria aqueles abraços mais vezes, queria viver mais momentos assim. Umbanda? Mas não eram aqueles vasos cheio de sujeiras e bichos mortos na esquina? Aquelas macumbas para amarrar “possíveis almas gêmeas”?

Quando o mundo me virou as costas, foram as entidades de Umbanda que abriram seus braços para me acolher, dizer algumas verdades, levantar meu astral e mostrar o valor que existe no amor.

Sorri novamente, deixei de lado o que queria me fazer mal, segui em frente…

A vida é mais bonita quando olhamos para o que realmente interessa e nos faz bem, principalmente quando não negligenciamos nossos erros e os obstáculos que temos que enfrentar.

Minha vida melhorou, me fortaleci prontamente. Minha fé revitalizou, mostrou que tudo pode ser diferente.

Lembro como se fosse hoje, aquele dia de trabalho exaustivo e que não rendia, levantei e fui até a cozinha pegar uma xícara de café. Cheguei e apertei o botão para a máquina preparar meu expresso. Fiquei ali, esperando, no escuro. Outra pessoa chegou, acendeu a luz e se assustou.

— Está no escuro, João? Acende a luz rapaz. – disse.

— Estou bem sim, mas nem percebi que não acendi a luz – , eu ri.

Poucos segundos depois, outras duas pessoas chegaram. Era costume as reuniões não programadas na hora do cafezinho. Entre tantos assuntos paralelos ao trabalho, até aquele momento, não tive a oportunidade de dizer o que pensava a respeito de religião, e as giras no terreiro estavam me fazendo tão bem que queria falar para outras pessoas, ajudá-las a encontrar a paz que começava tomar conta de mim. Mas como um relapso do tempo, uma insistência quase que determinante, o assunto da conversa foi para o lado da fé.

Conversa vai, conversa vem, até que perguntam:

— Qual é a sua religião?
Engasguei e disse: — Sou católico não praticante. (fiz primeira comunhão e nada mais).

A conversa acabou e algo dentro de mim incomodava muito. Durante dias fiquei com um nó na garganta que me consumia. Católico não praticante? Que porra é essa?!

Na próxima gira no terreiro de Umbanda, novamente as entidades me receberam de braços abertos, sorriso no rosto e a energia do amor emanava no ar. O nó na garganta aumentou substancialmente e começava a entender o que era aquilo. O guia que estava em terra, percebendo minha angustia, chegou próximo e disse:

— Não se preocupe “bichim”, não precisa falar aos quatro cantos do mundo no que você acredita. O que importa pra gente, é você ter um coração bom, só isso “visse”?!
— Obrigado Baiano, obrigado mesmo.

Sai da gira leve, mas ainda mais incomodado. Não consegui dormir a noite, virei de um lado para o outro na cama e a minha resposta “Católico não praticante” ressoava em minha mente. Como ousei a dizer isso? Quando mais precisei, quando meu coração parecia explodir, foi os guias da Umbanda que me escutaram, acolheram e me amaram. E quando me perguntam no que acredito, qual minha religião… eu renego? Meu Deus!
Outro dia, outro momento para o café. Juntam-se duas, três… seis pessoas… e começam a falar sobre a vida, destino, outras encarnações. Papo vai, papo vem… eu em silêncio. Até que sai da boca de um dos amigos da empresa:

— Eu tenho medo é de macumba, deus me livre! Aquele povo da Umbanda, Candomblé…

O nó na garganta aumentou… coração acelerou… saiu espontaneamente:

— Quanto preconceito, que horror. Isso porque você se diz cristão.

— Sou mesmo, e quero longe de mim esse tipo de gente. – me retrucou.

— Sorte a deles, uma pessoa amarga assim só atrasa a vida. – falei!

— Por que tanta defesa? Parece até que é um macumbeiro, credo!

 

Naquele instante, respirei fundo, busquei a calma que havia dentro de mim. Foi quando ele me perguntou diretamente:

— Qual é a sua religião? – questionou com ar de superioridade.

— Sou Umbandista, porra! Com todo orgulho e coração.

Ele me olhou com ar de assustado, sem graça. O assunto acabou, cada um voltou para sua mesa aos poucos e não se falou mais nisso. Aquele nó na garganta era a vontade reprimida de assumir o que realmente sou. Era o reconhecimento de quem realmente olha por mim, que zela por mim.

Muitos se afastaram, viraram a cara. Outros se aproximaram, mostraram a verdade de si.

A melhor frase que saiu do meu coração, foi um ato de amor. Sou Umbandista, PORRA!

A libertação que muitos almejam, e que tenho a tranquilidade de ter falado a um bom tempo.

Como na oração “Me livrai de todo o mal”, me livrei. Quem é, ficou. Quem nunca foi, se foi. Assim seja! Saravá!

Por João Paulo Francisco
Foto Nathália Rodrigues

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