Seu canto era para chorar.

Pisei na areia e senti a brisa invadir meu corpo. O ar é mais puro na frente do mar. Água que acalma, é com sal, muito sal. Basta entrar no mar, deixar as ondas baterem no corpo e mergulhar, para toda maldade, mal olhado e energia negativa sair e nos deixar revigorados.

Aquele dia caminhei sereno, olhando as conchas que estavam na areia. Parecia obra de arte, como se alguém tivesse colocado uma a uma. A água limpa e azul, contracenava com as ondas e sua espuma branca. No horizonte, barquinhos com pescadores lançando suas redes em busca do alimento e o pão na mesa.

Continuei andando, as ondas batiam nos meus pés como se fizessem carinho. Uma concha veio rolando junto com a última onda e parou na minha frente. Abaixei e peguei, era como um presente de mãe Iemanjá. Eu queria ouvir sua voz, eu queria ver seu canto, eu queria sentir todo o seu axé. Coloquei a concha próximo ao meu ouvido, e pelo vácuo comecei a escutar o contraste das ondas que estavam na minha frente e as ondas que estavam dentro da concha. Sim, eram diferentes mas em perfeita sintonia. Continuei andando e absorvendo a magia do reino de Iemanjá. Andei alguns metros a mais, até que as ondas que tocavam dentro daquela concha pararam. Chacoalhei para arrumar o defeito, não adiantou. As ondas haviam parado. Olhei para o mar, e as ondas também silenciaram.

A noite caía e a lua começava a aparecer. A brisa ainda continuava me abraçando e abençoando, fiquei ali, parado, ouvindo o balanço das águas. Até que uma música começou a tocar, bem baixinho. Olhei para os lados e nada havia. Estranhei, mas a melodia estava tão gostosa que fechei os olhos e aproveitei aquela energia e sintonia.

Percebi que vinha da concha que apareceu frente aos meus pés. Uma sereia cantava, um canto único e bonito. Era Iemanjá, minha mãe Iemanjá. Coloquei a concha perto do meu ouvido e pude ver em meu coração, Iemanjá saindo do mar com sua linda veste azul e cabelos longos. Ela cantava e irradiava por toda a praia, uma energia bonita e azul, que ganhava força com a claridade da lua.

Olhei para o seu rosto, e a feição não era feliz. Estranhei, como pode a rainha do mar estar triste. Abri os olhos e pude ver ela na minha frente. Seu canto, observando com mais sensibilidade, não era de felicidade. Ela realmente estava triste. SEU CANTO ERA PARA CHORAR. Meus olhos marejaram e também deixei cair algumas lágrimas. Mesmo aparentemente triste, ela veio até mim e me abraçou. Oh mãe Iemanjá, como eu te amo! Odoyá minha mãe.

Ela continuou cantando enquanto voltava para seu reino, as águas salgadas que acalmam a nossa alma e limpam nosso espírito. Aos poucos a música foi silenciando dentro da concha, até parar. Fiz uma oração, pedi que Olorum iluminasse meus pensamentos, pois não entendi porque ela estava triste. Resolvi levantar e andar pela praia, sentindo o vento tocar meu rosto e limpar meu perispírito.

Avistei longe dali, algumas tendas armadas, uma ao lado da outra. Várias imagens de Iemanjá expostas para celebrar e presentear a rainha das águas salgadas. Muita gente feliz e emocionada por vivenciar a espiritualidade em frente a imensidão do mar. Olhei novamente para o horizonte, e pude ver mãe Iemanjá enviando energias harmoniosas e revigorantes para todas aquelas pessoas, que lindo de se ver. Cheguei próximo a um quiosque, sentei e fiquei olhando os preparativos. Tão bonito, tão marcante.

Parei, pensei e refleti. Como eu pude ver e ouvir o canto de mamãe sereia com semblante triste, e mesmo assim ela abençoando à todos? Por que ela ficaria tão triste em uma festa onde milhares de pessoas vem até sua casa para a homenagear?

Ouvi alguns atabaques entoarem.

“Iê, Iemanjá
Rainha das Ondas
Sereia do mar
Rainha das ondas
Sereia do mar”

 

Acompanhei diversos terreiros celebrando e agradecendo a yabá que tanto abençoa a Umbanda. Como muitas coisas que acontecem durante nossa vida, fiquei sem entender tudo aquilo que havia acontecido. Saí da praia e voltei para casa para dormir.

 

No outro dia, acordei cedo e revigorado. Sai logo após o café da manhã para andar na praia. Ao chegar, fiquei paralisado. A areia toda suja, amontoada com garrafas, restos de alimento, galhos de flor e barquinhos de madeira. Olhei para as ondas, mal pude ver sua beleza, de tanta sujeira que estava carregando. Mas não foi isso que me deixou triste. Minha vista embaçou, esfreguei meus olhos e abri novamente. Vi mãe Iemanjá suja, ferida e triste. Nos seus lindos cabelos longos e pretos haviam pedaços de madeira e pentes de plástico presos. Na sua roupa cintilante e azul, cacos de vidro que rasgaram seu vestido, sua pele e sua alma. Entendi porque seu canto estava triste. Mas, mesmo assim, ela levantou seus braços e direcionou suas mãos pra mim. Deu um sorriso, enviou um carinhoso beijo e me abençoou. Retribui enviando outro beijo e pedindo desculpas por tudo aquilo.

Ainda não tinha feito minha oferenda, e decidi começar imediatamente. Deixei minhas rosas brancas e champanhe de lado. Peguei uma sacolinha, agachei e peguei a primeira garrafa que estava jogada a própria sorte na areia. Dei mais alguns passos, peguei pedaços de um barquinho de madeira. E continuei andando, para recolher todo aquele lixo que tanto deixou a nossa rainha sereia triste.

 

SEU CANTO ERA PARA CHORAR. Ela chorou, eu chorei. Imaginei pessoas vindas de diversos lugares, em frente a minha casa despejando sujeira. Garrafas, sacos de lixo e derivados. Senti um nó na garganta, senti um aperto no coração. Que isso possa ser diferente, de agora em diante. Que nossa oferenda possa ser de sentimentos e amor. E que sejamos justos, educados e limpos.

Nos perdoe mãe Iemanjá.
Nos perdoe!

Axé! Saravá! Mojubá!
Por João Paulo Francisco

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