Livro “O Guardião da Meia-Noite”, Rubens Saraceni

O livro da vez da série LITERATURA UMBANDISTA, do canal Uma simples conversa  é  “O Guardião da Meia-noite”, do autor Rubens Saraceni. Assista ao vídeo aqui!

Arrisco a dizer que é o romance umbandista mais lido e amado dentro da Umbanda. Muitas pessoas inclusive, se interessaram pela religião após ler a obra, de tão fascinante que é a história desse guardião.

Logo no início, o livro prende nossa atenção pela linguagem convidativa e a série de acontecimentos com o personagem central da trama, chamado em todo o livro de Barão. Muito rico e com influência na corte de Portugal, tinha muitas terras, escravos e plantações, o que potencializava seu poder perante a sociedade. Mas chega um momento, que o Barão se vê muito sozinho e decide arrumar uma esposa.

Dessa vontade totalmente natural, inicia sua trajetória até chegar no mais intenso abismo para sua alma. O Barão escolhe então, após muitas tentativas no Brasil, uma jovem de Portugal. Como ela era de uma família honrada, julga ser a melhor escolha para sua vontade de ter uma família. Então, traz ela para o Brasil. Uma vez casados, naturalmente eles tem a noite de núpcias, onde o Barão chega as vias de fato. Mas, ela não tem sangramento no ato sexual. Com a confirmação da família que a jovem era virgem, ele se sente enganado e humilhado por tal descoberta, e arquiteta um plano para desmascarar a jovem perante a sociedade local e devolvê-la para sua família.

Mas o tiro sai pela culatra e dá tudo errado. Essa ação cria uma situação onde um erro gera outros erros e ele é conduzido por uma jornada de mortes, desespero, confusão e desordem.

Nesse momento, o livro nos faz refletir sobre nossas ações no cotidiano. Pequenos “delitos” podem arruinar toda uma história, como a dele, que podia ser muito melhor. O livro narra toda essa história enquanto o Barão ainda está encarnado. Sua vontade era ter uma esposa para terminar sua vida ao lado de alguém, mas os planos não deram certos. Após um tempo, ele é esquecido por todos até o seu desencarne.

Aí, conhecemos como ocorre o processo de despertar no mundo espiritual. Na Umbanda, não acreditamos no inferno ou paraíso, temos consciência das diversas formas de consciência e que nossos atos geram uma energia e um resultado, e foi isso que o Barão encontrou após ser enterrado. Dor e sofrimento causados por sua mente. Clamou a Deus e ao Diabo para que saísse debaixo da Terra, inclusive, ele não tinha ideia que tinha morrido. Até que em um momento, ele é resgatado por um espírito das trevas, que o tira daquele horror com cobras e ratos pairando por seu esqueleto e dá a oportunidade de renascer novamente, agora, no mundo dos espíritos.

Como o Barão não aceita receber ordens, sofreu uns bocados no início com quem o resgatou. Chamado de Príncipe das Trevas, mesmo com toda dificuldade no início e fazendo do Barão seu escravo, nasce uma amizade. Cada missão designada ao Barão ele ganhava créditos e ia aos poucos, ganhando notoriedade. Enfim, após aprender as formas de trabalho, magia e tudo o que o Príncipe o ensinou, ele é enviado a uma missão importante, onde consegue cumprir com sucesso. Então, ele ganha o direito de pedir um presente, e escolhe uma escrava do Príncipe. Mesmo ela sendo somente pele e osso, ele a escolhe como uma fiel companheira.

“Agradeci suas palavras e saí com a jovem. Ela era só pele e ossos, pois toda a sua energia vital lhe fora subtraída. Com o passar dos dias, seu aspecto começou a melhorar e, pouco a pouco, foi se refazendo.

Aprendi muitas coisas com o Príncipe. Ele era mesmo um mestre em tudo, e, após algum tempo, eu sabia tanto quanto ele.

Em pouco tempo obtive, com o meu amo, a liberdade, e fui admitido na assembleia dos maiorais. Já era aceito como um deles. Consegui ainda outras escravas e fui formando minha falange, e só de moças, uma mais bela que a outra. De fato, eu tinha um gosto refinado.

Eles não sabiam, mas eu tentava ajudar as moças para compensar aquelas que, um dia, quando ainda na carne, havia arruinado.” […] pág. 84 – O Guardião da Meia-Noite, Rubes Saraceni

O livro nos ensina como é a forma de se relacionar dos nossos guardiões da esquerda. Quando um espírito comete graves erros e é enviado até o “umbral”, é preciso ter pulso firme, honra e força para lidar com os trabalhos de energia densa das regiões onde eles imperam. Em um trecho, é explicado o que é o umbral, mas não de forma romântica como nos foi ensinado por outras obras literárias, mas como realmente é.

“O umbral não é um lugar, é um estado de espírito mental. Ali você  ouve de tudo. É uma região alimentada por vibrações mentais. Eu, na minha cova, estava no umbral e não sabia.” pág. 93 – O Guardião da Meia-Noite, Rubes Saraceni

Aprendemos também, que mesmo se tivermos arrependimento dos erros que cometemos, as consequências são inevitáveis.

“Não adiantou, ainda em vida, eu me arrepender. Tinha errado e iria pagar. Fiquei reduzido a este esqueleto atado ao meu corpo. Posso me metamorfosear como um camaleão, mas sou uma caveira. Isto não posso negar para mim mesmo. Então, que adianta tentar ocultar? Aqueles que conhecem a verdadeira natureza das almas sabem por que fui reduzido a este estado. Meus crimes estão anotados nos dois livros, no branco e no negro, e é o que importa. É por isso que não escondo o que sou. […] pág. 94 – O Guardião da Meia-Noite, Rubes Saraceni

Com a narração e a história propriamente dita, aprendemos que a responsabilidade que temos enquanto espíritos eternos, definem o bem e o mal no qual nos colocamos durante as experiências, seja na carne ou no espírito. Em todo o livro, as lições são evidentes e entram em nossa mente de forma elucidativa. Conforme o Guardião da Meia-Noite vai aprendendo junto as experiências vivenciadas, ele vai trilhando um caminho cheio de luz. Em uma das passagens marcantes do livro, ele é questionado o motivo de ajudar tantos espíritos mulheres, recolhendo, acolhendo e ensinando os mistérios para atuarem em sua falange, mas não de uma forma rude tornando-as escravas, mas com respeito. Nesse momento, ele demonstra a essência de Exu:

“– Por que fizeram isso?

– Por causa dos livros negros. Se o que estava escrito no livro negro também estava escrito no livro branco, então que se inscrevesse nos dois livros que um barão, que arruinou algumas mulheres, e uma mulher, que arruinou alguns homens, levantaram das Trevas e puseram no caminho da evolução milhares dos dois sexos.

– Mas sem ninguém lhes pedir?

– Para que esperar alguém pedir?  Isso é hipocrisia, coisa de falso pregador. Quem quer fazer algo, é livre para tal. Não precisa esperar que alguém lhe peça. Simplesmente o faz, e ponto.” […] pág. 98 – O Guardião da Meia-Noite, Rubes Saraceni

A romance mediúnico ainda nos ensina sobre como o bem precisa do mal para equilibrar as forças do universo, a importância da hierarquia espiritual, a afinidade dos espíritos para cumprirem as missões designadas pelo criador e como é o processo de um espírito como o Guardião da Meia-Noite, que faz dos seus erros a maior potência para chegar a luz.

E você, como acha que termina essa história? Essa resenha é apenas um gostinho de tudo que você encontra nessa obra maravilhosa de Rubens Saraceni e Pai Benedito de Aruanda.

Livro é conhecimento, é vivência, é vida. Devemos agradecer de todo coração a todo escritor que se dedica a publicar uma obra edificante.

Obrigado autor Pai Rubens Saraceni. Muito axé pra você onde estiver!

Saravá Umbanda.
Axé!
João Paulo Francisco – Médium e escritor

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2 comentários Adicione o seu

  1. Karen Mota disse:

    Um excelente livro, principalmente para quem não conhece quase nada dá umbanda, como eu. Fiquei muito interessada, gostei muito da resenha. Uma história bem interessante. Esse livro está em minha lista de favoritos. Gratidão.

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  2. sandra pontes disse:

    Perfeito

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